Mino Pedrosa

Rede Sarah: Hospital de excelência comandado por uma pistoleira

28 jun 2017

A mitologia grega serve de pano de fundo para uma valiosa história real dos dias de hoje!  Euterpe, filha de Zeus, deusa grega da música e da alegria, entorpeceu a quem ouviu o som da sua flauta.

Em um distante continente, a quilômetros da Grécia, entre o final dos 70 e início de 80 do século passado, uma pseudomusa inebriou com a música um promissor médico que arquitetava um projeto de saúde que revolucionaria a reabilitação motora no Brasil. O nome é famoso. Aloysio Campos da Paz. A ele coube criar a Rede Sarah. E na sequência, imaginando trazer à vida uma deusa, gerou um monstro.

Esse monstro – não uma ficção como Frankenstein, mas uma figura palpável -, é Lúcia Willadino Braga, sucessora de Campos da Paz no comando da Rede Sarah. Sua trajetória é marcada por falsas comendas e títulos. A gestão dela, tenebrosa, está enterrando um sonho do seu mestre o idealista.

Gaúcha de Porto Alegre, Lúcia herdou um hospital de excelência mundial na medicina e na gestão pública, inaugurado em 1960, por Juscelino Kubitscheck.  Neta de alemã e de índio, e dona de uma ambição insaciável, ela deixa rastros em uma trajetória que revelam casos de amor proibido e subserviência ao poder.

Tudo começou na Universidade de Brasília, quando a então estudante Lúcia Willadino Braga se habilitava a trabalhar com o som de uma flauta, como principal instrumento para estimular o cérebro de crianças com paralisia cerebral. Surgia assim, no cenário de um hospital, sua promissora juventude, que incorporava o espírito revolucionário na década de 70, representado no movimento hippie. Treinada por médicos e psicólogos, enfrentou a resistência da corporação médica, mas teve um forte aliado, impressionado com os atributos físicos da jovem.

No início da década de 80, erguia-se o Hospital Sarah, como promessa de um Centro de Reabilitação, na capital federal.

Do apreço e confiança avassaladores, foi questão de pouco tempo, do lado de Campos da Paz para delegar poderes em meio a tanta afetividade. E entre sorrisos e olhares escondidos, a autonomia de Lúcia veio rápida. A moça de olhos azuis que usava seu corpo para seduzir o gênio transitou por diversas áreas. Incentivada por Campos da Paz a dedicar-se aos estudos aplicados dos protocolos de reabilitação, ela respondeu à orientação do mestre. Passou, então, a ser preparada à sucessão da presidência do Hospital, que ganhara status de Rede, com cuja sede em Brasília. Mas, faltavam, no entanto, os títulos que convencessem a moça como dona de currículo que correspondessem ao comando de exigente e respeitada corporação da saúde.

Campos da Paz e Lúcia Braga no Centro de Reabilitação no início do romance.

Acordos e convites foram disparados para endereços de centros de pesquisas, no exterior. Foram convidados pesquisadores para convênios com o Hospital e consultorias muito bem remuneradas. Assim surgiu a concessão de um título de doutora Honnoris Causa pela Universidade de Reims, na França. Uma pesquisadora desconhecida, sem trabalhos conhecidos, era condecorada. As justificativas construídas convenceram redações que acreditaram em notícias sem comprovação e concederam manchetes.

Poucos sabiam, mas o título era um acordo entre os amigos Gerárd Deloche e Campos da Paz. O pesquisador francês, que estudava o cérebro, passou a orientar a aluna para, da música, estudar o cérebro e ganhar um mestrado na universidade do orientador e doutorado na UNB sob influência de Darcy Ribeiro e de professores que militavam na política.

A então recente pesquisadora se apropriou de pesquisas prontas de neurorreabilitação infantil, de quem tem nome e endereço, mas não teve forças política e física para contestar a apropriação indébita de um conhecimento: o Modelo Sarah tinha diferentes autores, mas passou a ser uma descoberta e mudou a autoria. Passou a ser o Modelo Braga, o tratamento do amor, que ela justifica assim e sustenta em congressos internacionais. A família, é o mote dela, é imprescindível para reabilitar uma criança com paralisia cerebral. E sucessivamente outras pesquisas mudaram de nome e autores ou passaram a ser de autores, meros colaboradores. E Lúcia Braga, comprovadamente uma fraude, figurava nas listas de congressos internacionais e entre seletos convidados, artistas e políticos.

Congressos foram promovidos em Brasília onde o primeiro objetivo era promover o nome da pesquisadora.  Doutora Lúcia – assim se apresentava e exigia ser apresentada -, passou a minimizar o poder do grande mestre, fragilizado pela idade e debilitado pela saúde física e emocional. Nos últimos anos o médico respeitado que emprestou o nome a um modelo de reabilitação experimentou na pele o desacato de ordens, a soma de atritos e a divisão de atenções amorosas, até mesmo com os consultores que vinham ao Brasil. E até mesmo o tratamento médico de Campos da Paz teve o direcionamento de Lúcia surpreendendo médicos e técnicos que um dia foram impedidos de instalar equipamentos de oxigênio para aliviar uma insuficiência respiratória que o acompanhou até a morte. No leito de onde sairia apenas para o túmulo, Campos da Paz revelou a amigos a lamentada traição, e chorou ao saber que funcionários de sua confiança passaram a seguir ordens de Lúcia, à revelia dele.

Campos da Paz (à dir.) ao lado da neurologista Lúcia Braga e do arquiteto João Filgueiras (Lelé).

A diretora Luciana Rossi, filha de um amigo de Campos da Paz, chegou a contestar uma polêmica ordem de demissão e a destituição cogitada da diretora maior do hospital. Rossi fora poupada por ele de uma demissão quando responsabilizada com outra diretora por praticar assédio moral a funcionários do Sarah, em São Luis, capital do Maranhão. As diretoras Lúcia e Luciana Rossi uniram forças em uma campanha para desconstruir a memória de Campos da Paz. Foram demitidos mais de 400 funcionários concursados, muitos gozavam da confiança do fundador do hospital. Foram fechados setores, a exemplo da unidade de Projetos de Equipamentos Hospitalares, o Centro de Construção de Hospitais idealizado pelo arquiteto Lelé.

 

Unidades modelo foram demolidas, como a antiga creche que fora o protótipo dos CIEPS de Darcy Ribeiro. Equipamentos de valor viraram sucatas. Ressonâncias nunca usadas perderam peças e foram vendidas com baixo preço.

Centro de Pesquisas e Desenvolvimento de Equipamentos Hospitalares – EquiPhos. Desativado na gestão de Lúcia Braga.

Todos os esforços foram feitos para que o Sarah se tornasse a marca do Modelo Braga. A qualidade e a ocupação dos hospitais, perseguidas por Campos da Paz, ficaram no passado.

Em Brasília, na unidade Sarah Kubitschek no Lago Norte, bairro nobre da capital, é explicito o abandono onde o mato tomou conta de uma estrutura que poderia estar sendo utilizada na rede pública hospitalar.

Os apartamentos abandonados acumulam poeira, ferindo de morte o projeto da rede Sarah.

Unidade da Rede Sara Lago Norte em Brasília-DF

No Rio de Janeiro, onde também acontece o abandono, prevalece na gestão da “doutora” Lúcia Braga a influência política e do poder Judiciário. Fadinha, como ouvia em seus lóbulos, a ex-amante de Campos da Paz é mantida pelo conselho que não tem conhecimento das mazelas por ela criadas e alimentadas.

Campos da Paz deixou um legado intelectual em quatro livros, sendo que Lucinha deletou o último livro que Campos desabafava com técnicas e conhecimentos que desmascarava a trajetória da amante. Nas paredes dos hospitais que lembravam com fotografias os áureos tempos de gestão de excelência, foram apagados para prevalecer o poder e sua vaidade.

Fadinha, doutora, amante – ou que título tenha – Lúcia agrega mais um aos olhos de velhos amigos de Campos da Paz: o de pistoleira, no sentido de quem anda com pequena pistola na bolsa.

O Conselho que não conhecia sua gestora.

Membros do Conselho – Rede Sarah Kubitschek

Assista os vídeos das mazelas das unidades Rede Sarah Kubitschek

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